sexta-feira, abril 10, 2026

Foi Apenas um Acidente

(Yek Tasadef Sadeh, Irã/França, 2025)
Direção: Jafar Panahi
Elenco: Vahid Mobasseri, Ebrahim Azizi, Mariam Afshari, Hadis Pakibaten.

Ao atender uma família que teve o carro com problema técnico, o funcionário de uma empresa, Vahid, reconhece o som da perna mecânica do dono do carro como o seu torturador na prisão. Para ter certeza da identidade do homem, Vahid o sequestro e busca outras vítimas do torturador. E nesta jornada de traumas e feridas abertas causa diversos dilemas.
O vencedor da Palma de ouro de Cannes de 2025 é uma instigante obra sobre violência do estado e a dor dos traumas do autoritarismo. No entanto, o filme de Jafar Panahi sai do óbvio ao misturar o desejo de vingança mas sem perder a humanidade durante esse embate. Se muitos podem achar que o filme se perde justamente por não sair dessa temática; a minha opinião defende que o diretor bate nesta tecla pois a sede de justiça e a busca por um alívio aos traumas da tortura estatal é um sentimento que nunca será cicatrizado por quem passou por essa experiência. O ótimo final resumido bem essa sensação. Mas não é por isso que as pessoas perderão a sua humanidade perante aos outros. Assim, o diretor expõe uma galeria de personagens que não hesita em ajudar o próximo quando necessário. Dessa forma Foi Apenas um Acidente é um retrato condizente de um país (Irã) arrasado pela mão pesada de um Estado, e a dor de carregar dores que nunca serão sanadas. Um poderoso filme sobre traumas e autoritarismo mas sem perder a benevolência dos seus personagens.

domingo, abril 05, 2026

Kill Bill: Todo Sangue Derramado

(Kill Bill: The Whole Bloody Affair, EUA, 2025)
Direção: Quentin Tarantino
Elenco: Uma Thurman, David Caradine, Daryl Hannah, Lucy Liu.

Após sobreviver a uma chacina em seu casamento, uma ex-assassina profissional busca vingança contra os seus algozes em especial ao seu antigo mentor e amante Bill.
Confesso que Kill Bill é o filme do meu coração em relação à filmografia de Quentin Tarantino (Bastardos Inglórios e o ponto alto da carreira dele). E rever a edição definitiva desta obra prima é um luxo (e deleite) para qualquer cinéfilo. O quarto filme de Tarantino não foi concebido para ser dividido em duas partes mas é compreensível (e financeiramente inviável) a distribuição de um filme de longuíssima duração. Mesmo assim -  nesta edição - o filme passa longe de ser chato. A aula de montagem de Sally Menke (e que faz falta nos trabalhos posteriores de Tarantino após Bastardos Inglórios) em que brinca com a cronologia dos fatos e sabe dosar um ritmo alucinante com belos momentos contemplativos. As suas quatro horas e meia passam voando. O show de fotografia do mestre e habitual fotógrafo de Tarantino, Robert Richardson, que mistura cores, tipos variados de lentes e ângulos. É visível que Richardson tenha se divertido neste trabalho. A inacreditável seleção de sua trilha sonora e canções que vai de Ennio Morricone ao pop japonês. A direção criativa e inventiva do mestre que usa e abusa de recursos visuais sob a referência de um argumento simples de vingança, violência e misoginia. E por fim, a melhor atuação da carreira de Uma Thurman (responsável pelo argumento do filme) que está fantástica ao expressar raiva e vulnerabilidade (e senso de humor) na medida certa. Kill Bill: Todo Sangue Derramado vai além da homenagem aos filmes de Kung Fu e faroeste. É uma ópera cinematográfica rara feita por Hollywood que atingem em cheio várias plateias do mundo. Um monumento cinematográfico.

quarta-feira, abril 01, 2026

Sirât

(Espanha, 2025)
Direção: Oliver Laxe
Elenco: Sergi López, Bruno Núñez Arjona, Stefania Gadda, Jade Oukid.

Luiz (acompanhado do seu filho e cachorro) procura sua filha que participa de raves no Marrocos e que se encontra desaparecida por vários meses. E nesta busca ele se conhece de um grupo de pessoas com a esperança de achar sua filha. Nessa aproximação ele começa a compreender esse estilo de vida tanto singular. 
O novo filme do cineasta x é uma reflexão de um mundo paralelo de um grupo de pessoas que vivem longe da civilização em busca da catarse das raves como um escapismo de dores pessoais. Assim, Sirât revela um filme de estrada em que a busca particular de Luís pela sua filha se mistura aos dramas das pessoas que pertencem a esse universo. Com belas imagens do interior do Marrocos em que o ambiente árido e montanhas íngreme revelam um road-movie  distópico à lá Mad Max. Me chamou atenção sensacional a sensacional trilha sonora de Kangding  Ray usa a música eletrônica para dar um sentido de tensão e melancolia. Mas o trabalho sonoro é um tremendo destaque em que as batidas  eletrônicas se tornam quase como som tribal. E também nas cenas de transporte o som dos carros é fundamental para a imersão do desejo dos personagens. Com um final tocante, Sirât é um grito dilacerante de pessoas buscando uma humanidade que cada vez vai se tornando pó. Seria um Mad Max dirigido pelo Lars von Trier. E isso é um grande elogio.

sexta-feira, março 20, 2026

Destaques nos Cinemas

O TESTAMENTO DE ANN LEE

(The Testament of Ann Lee, EUA, 2025) de Mona Fastvold
Musical. Biografia de uma inglesa que criou uma seita nos EUA colonial em que dizia ser a nova messias.




A PEQUENA AMELIE

(Amélie et la Métaphysique des Tubes, França, 2025) de Mailys Vallade e Liane-Cho Han
Animação. Amélie é uma menina francesa que quer descobrir o mundo após sair de um longo estágio de coma.


DEVORADORES DE ESTRELAS

(Project Hail Mary, EUA, 2026) de Phil Lord e Christopher Miller
Ficção cientifica. Um professor acorda de uma longa hibernação e descobre que se encontra numa missão espacial.



ENZO

(França, 2025) de Laurent Cantet e Robin Campillo
Drama. Jovem de 16 anos surpreende a sua família rica ao virar um simples aprendiz de pedreiro.



LA GRAZIA

(Italia, 2025) de Paolo Sorrentino
Drama. No final de seu mandato, o presidente da Itália passa por dilemas éticos e morais nas suas últimas decisões no cargo.



VELHOS BANDIDOS
(Brasil, 2026) de Cláudio Torres
Comédia. Um casal de assaltantes octogenários se unem a um jovem casal para o seu derradeiro roubo.

domingo, março 15, 2026

Lançamentos nos Streamings

O CASAMENTO DE MURIEL
(Muriel´s Wedding, Austrália, 1994) de P. J. hogan
Paramount+
Comédia. Jovem sufocada pela família cria duas obsessões: casamento e ABBA.



CHINATOWN
(EUA, 1974) de Roman Polanski
Paramount+
Policial. Detetive é contratado para desvendar um mistério que envolve figurões da Califórnia.



COPIA FIEL
(Copie Conforme, França/Irã, 2010) de Abbas Kiarostami
Mubi
Drama. Ao promover um livro na Itália, um escritor britânico reencontra uma francesa.



FESTA DE FAMILIA

(Festen, Dinamarca, 1998) de Thomas Vintenberg
Mubi
Drama. Em uma festa de família o filho revela verdades dolorosas sobre o patriarca da casa.



FOI APENAS UMACIDENTE

(Yek Tasadef Sadeh, Irã/França, 2025) de Jafar Panahi
Mubi
Drama. Ao suspeitar que um homem foi o seu carrasco, mecânico contata outras vítimas para descobrir a verdade.


LADY BIRD - A HORA DE VOAR
(EUA, 2017) de Greta Gerwig
Netflix
Drama. A difícil relação de uma mãe enfermeira e sua filha adolescente chata e rebelde.


REDE DE INTRIGAS

(Network, EUA, 1976) de Sidney Lumet
Mubi
Drama. Apresentador de televisão enlouquece ao vivo em seu programa ao revelar que será demitido - e isso causa uma enorme audiência.



A ÚNICA SAÍDA

(Eojjeolsuga Eobsda, Coréia do Sul, 2025) de Park Chan-Wook
Mubi
Suspense. Para conseguir um emprego - e continuar o alto padrão de vida - homem assassina os seus concorrentes.


VIDAS PASSADAS
(Past Lives, EUA/Coréia do Sul, 2023) de Celine Song
Netflix
Drama. Jovem coreana que tem uma vida estabilizada nos EUA se encontra com um antigo colega de escola de Seul.

terça-feira, março 10, 2026

As Meninas

(Brasil, 1995)
Direção: Emiliano Ribeiro
Elenco: Adriana Esteves, Drica Moraes, Cláudia Liz, Ester Góes.

No Brasil de 1971, uma greve atinge um pensionato deixando o local vazio. Exceto a ingênua Lorena que decide ficar. E nesse período ela reencontra suas amigas Lia que está envolvido na guerrilha; e Ana, uma bela mulher que trabalha como modelo mas se afundando cada vez mais nas drogas. 
1995 foi o ano da retomada do cinema nacional após a gestão Collor. E nesta leva destaca-se a adaptação da obra de Lygia Fagundes Telles. O filme de Emiliano Ribeiro representa bem o período naquele momento. É visível que a obra apresenta uma produção modesta em termos de imagem e som. Mesmo assim As Meninas têm qualidades como é o caso do bom roteiro que aborda uma visão feminina nos tempos de chumbo da ditadura da década de 1970. Assim, os ideais das protagonistas refletem a esperança e o desencanto do momento. E por falar em protagonistas o elenco está ótimo em que a surpresa fica com a excelente atuação de Claudia Liz que dá vida a uma bela mulher mas totalmente perdida em seus ideias. O filme de Emiliano Ribeiro é uma obra pouco conhecida mas que merece um melhor reconhecimento pela sensibilidade que apresenta aos sonhos, desejos e desilusão de uma geração.