sexta-feira, abril 10, 2026

Foi Apenas um Acidente

(Yek Tasadef Sadeh, Irã/França, 2025)
Direção: Jafar Panahi
Elenco: Vahid Mobasseri, Ebrahim Azizi, Mariam Afshari, Hadis Pakibaten.

Ao atender uma família que teve o carro com problema técnico, o funcionário de uma empresa, Vahid, reconhece o som da perna mecânica do dono do carro como o seu torturador na prisão. Para ter certeza da identidade do homem, Vahid o sequestro e busca outras vítimas do torturador. E nesta jornada de traumas e feridas abertas causa diversos dilemas.
O vencedor da Palma de ouro de Cannes de 2025 é uma instigante obra sobre violência do estado e a dor dos traumas do autoritarismo. No entanto, o filme de Jafar Panahi sai do óbvio ao misturar o desejo de vingança mas sem perder a humanidade durante esse embate. Se muitos podem achar que o filme se perde justamente por não sair dessa temática; a minha opinião defende que o diretor bate nesta tecla pois a sede de justiça e a busca por um alívio aos traumas da tortura estatal é um sentimento que nunca será cicatrizado por quem passou por essa experiência. O ótimo final resumido bem essa sensação. Mas não é por isso que as pessoas perderão a sua humanidade perante aos outros. Assim, o diretor expõe uma galeria de personagens que não hesita em ajudar o próximo quando necessário. Dessa forma Foi Apenas um Acidente é um retrato condizente de um país (Irã) arrasado pela mão pesada de um Estado, e a dor de carregar dores que nunca serão sanadas. Um poderoso filme sobre traumas e autoritarismo mas sem perder a benevolência dos seus personagens.

domingo, abril 05, 2026

Kill Bill: Todo Sangue Derramado

(Kill Bill: The Whole Bloody Affair, EUA, 2025)
Direção: Quentin Tarantino
Elenco: Uma Thurman, David Caradine, Daryl Hannah, Lucy Liu.

Após sobreviver a uma chacina em seu casamento, uma ex-assassina profissional busca vingança contra os seus algozes em especial ao seu antigo mentor e amante Bill.
Confesso que Kill Bill é o filme do meu coração em relação à filmografia de Quentin Tarantino (Bastardos Inglórios e o ponto alto da carreira dele). E rever a edição definitiva desta obra prima é um luxo (e deleite) para qualquer cinéfilo. O quarto filme de Tarantino não foi concebido para ser dividido em duas partes mas é compreensível (e financeiramente inviável) a distribuição de um filme de longuíssima duração. Mesmo assim -  nesta edição - o filme passa longe de ser chato. A aula de montagem de Sally Menke (e que faz falta nos trabalhos posteriores de Tarantino após Bastardos Inglórios) em que brinca com a cronologia dos fatos e sabe dosar um ritmo alucinante com belos momentos contemplativos. As suas quatro horas e meia passam voando. O show de fotografia do mestre e habitual fotógrafo de Tarantino, Robert Richardson, que mistura cores, tipos variados de lentes e ângulos. É visível que Richardson tenha se divertido neste trabalho. A inacreditável seleção de sua trilha sonora e canções que vai de Ennio Morricone ao pop japonês. A direção criativa e inventiva do mestre que usa e abusa de recursos visuais sob a referência de um argumento simples de vingança, violência e misoginia. E por fim, a melhor atuação da carreira de Uma Thurman (responsável pelo argumento do filme) que está fantástica ao expressar raiva e vulnerabilidade (e senso de humor) na medida certa. Kill Bill: Todo Sangue Derramado vai além da homenagem aos filmes de Kung Fu e faroeste. É uma ópera cinematográfica rara feita por Hollywood que atingem em cheio várias plateias do mundo. Um monumento cinematográfico.

quarta-feira, abril 01, 2026

Sirât

(Espanha, 2025)
Direção: Oliver Laxe
Elenco: Sergi López, Bruno Núñez Arjona, Stefania Gadda, Jade Oukid.

Luiz (acompanhado do seu filho e cachorro) procura sua filha que participa de raves no Marrocos e que se encontra desaparecida por vários meses. E nesta busca ele se conhece de um grupo de pessoas com a esperança de achar sua filha. Nessa aproximação ele começa a compreender esse estilo de vida tanto singular. 
O novo filme do cineasta x é uma reflexão de um mundo paralelo de um grupo de pessoas que vivem longe da civilização em busca da catarse das raves como um escapismo de dores pessoais. Assim, Sirât revela um filme de estrada em que a busca particular de Luís pela sua filha se mistura aos dramas das pessoas que pertencem a esse universo. Com belas imagens do interior do Marrocos em que o ambiente árido e montanhas íngreme revelam um road-movie  distópico à lá Mad Max. Me chamou atenção sensacional a sensacional trilha sonora de Kangding  Ray usa a música eletrônica para dar um sentido de tensão e melancolia. Mas o trabalho sonoro é um tremendo destaque em que as batidas  eletrônicas se tornam quase como som tribal. E também nas cenas de transporte o som dos carros é fundamental para a imersão do desejo dos personagens. Com um final tocante, Sirât é um grito dilacerante de pessoas buscando uma humanidade que cada vez vai se tornando pó. Seria um Mad Max dirigido pelo Lars von Trier. E isso é um grande elogio.

sexta-feira, março 20, 2026

Destaques nos Cinemas

O TESTAMENTO DE ANN LEE

(The Testament of Ann Lee, EUA, 2025) de Mona Fastvold
Musical. Biografia de uma inglesa que criou uma seita nos EUA colonial em que dizia ser a nova messias.




A PEQUENA AMELIE

(Amélie et la Métaphysique des Tubes, França, 2025) de Mailys Vallade e Liane-Cho Han
Animação. Amélie é uma menina francesa que quer descobrir o mundo após sair de um longo estágio de coma.


DEVORADORES DE ESTRELAS

(Project Hail Mary, EUA, 2026) de Phil Lord e Christopher Miller
Ficção cientifica. Um professor acorda de uma longa hibernação e descobre que se encontra numa missão espacial.



ENZO

(França, 2025) de Laurent Cantet e Robin Campillo
Drama. Jovem de 16 anos surpreende a sua família rica ao virar um simples aprendiz de pedreiro.



LA GRAZIA

(Italia, 2025) de Paolo Sorrentino
Drama. No final de seu mandato, o presidente da Itália passa por dilemas éticos e morais nas suas últimas decisões no cargo.



VELHOS BANDIDOS
(Brasil, 2026) de Cláudio Torres
Comédia. Um casal de assaltantes octogenários se unem a um jovem casal para o seu derradeiro roubo.

domingo, março 15, 2026

Lançamentos nos Streamings

O CASAMENTO DE MURIEL
(Muriel´s Wedding, Austrália, 1994) de P. J. hogan
Paramount+
Comédia. Jovem sufocada pela família cria duas obsessões: casamento e ABBA.



CHINATOWN
(EUA, 1974) de Roman Polanski
Paramount+
Policial. Detetive é contratado para desvendar um mistério que envolve figurões da Califórnia.



COPIA FIEL
(Copie Conforme, França/Irã, 2010) de Abbas Kiarostami
Mubi
Drama. Ao promover um livro na Itália, um escritor britânico reencontra uma francesa.



FESTA DE FAMILIA

(Festen, Dinamarca, 1998) de Thomas Vintenberg
Mubi
Drama. Em uma festa de família o filho revela verdades dolorosas sobre o patriarca da casa.



FOI APENAS UMACIDENTE

(Yek Tasadef Sadeh, Irã/França, 2025) de Jafar Panahi
Mubi
Drama. Ao suspeitar que um homem foi o seu carrasco, mecânico contata outras vítimas para descobrir a verdade.


LADY BIRD - A HORA DE VOAR
(EUA, 2017) de Greta Gerwig
Netflix
Drama. A difícil relação de uma mãe enfermeira e sua filha adolescente chata e rebelde.


REDE DE INTRIGAS

(Network, EUA, 1976) de Sidney Lumet
Mubi
Drama. Apresentador de televisão enlouquece ao vivo em seu programa ao revelar que será demitido - e isso causa uma enorme audiência.



A ÚNICA SAÍDA

(Eojjeolsuga Eobsda, Coréia do Sul, 2025) de Park Chan-Wook
Mubi
Suspense. Para conseguir um emprego - e continuar o alto padrão de vida - homem assassina os seus concorrentes.


VIDAS PASSADAS
(Past Lives, EUA/Coréia do Sul, 2023) de Celine Song
Netflix
Drama. Jovem coreana que tem uma vida estabilizada nos EUA se encontra com um antigo colega de escola de Seul.

terça-feira, março 10, 2026

As Meninas

(Brasil, 1995)
Direção: Emiliano Ribeiro
Elenco: Adriana Esteves, Drica Moraes, Cláudia Liz, Ester Góes.

No Brasil de 1971, uma greve atinge um pensionato deixando o local vazio. Exceto a ingênua Lorena que decide ficar. E nesse período ela reencontra suas amigas Lia que está envolvido na guerrilha; e Ana, uma bela mulher que trabalha como modelo mas se afundando cada vez mais nas drogas. 
1995 foi o ano da retomada do cinema nacional após a gestão Collor. E nesta leva destaca-se a adaptação da obra de Lygia Fagundes Telles. O filme de Emiliano Ribeiro representa bem o período naquele momento. É visível que a obra apresenta uma produção modesta em termos de imagem e som. Mesmo assim As Meninas têm qualidades como é o caso do bom roteiro que aborda uma visão feminina nos tempos de chumbo da ditadura da década de 1970. Assim, os ideais das protagonistas refletem a esperança e o desencanto do momento. E por falar em protagonistas o elenco está ótimo em que a surpresa fica com a excelente atuação de Claudia Liz que dá vida a uma bela mulher mas totalmente perdida em seus ideias. O filme de Emiliano Ribeiro é uma obra pouco conhecida mas que merece um melhor reconhecimento pela sensibilidade que apresenta aos sonhos, desejos e desilusão de uma geração.

quinta-feira, março 05, 2026

Elefante

(Elephant, EUA, 2003)
Direção: Gus Van Sant
Elenco: John Robinson, Alex Frost, Elias McConnell, Matt Malloy.

Em um dia normal em uma escola dos Estados Unidos, observamos o cotidiano de alguns alunos. Um garoto recebe uma suspensão ao ajudar o pai que está bêbado. A conversa de um casal de namorados. Um jovem com pretensão de ser fotógrafo. Uma jovem tímida fora do padrão. Um grupo de amigas e seus diálogos frígidos. E um jovem que sofre bullying o que gera uma reação imprevisível e violento.
Elefante é um divisor de água a respeito da violência nas escolas (particularmente nos Estados Unidos). A obra prima de Gus Van Sant é um filme seco, cru e extremamente frio sobre as relações dos alunos. Filmado em longos planos sequências e sem trilha sonora, Elefante mergulha o espectador no cotidiano banal de vários alunos até que faltando meia hora para terminar o caos reina. Claramente inspirado no massacre escolar de Columbine, Sant não busca respostas mas o debate. Elefante registra jovens com problemas familiares, meninas que sofrem para se encaixar o padrão estético, o fácil acesso às armas. Como a escola é um mosaico de vidas, rotinas, Elefante só está interessada em focar a linha que separa vidas singulares - mas que todos encontrarão o mesmo destino no final. Mas o diretor faz isso de uma forma particular através de sequências que pulam a linha do tempo e do ponto de vista dos personagens. Nos corredores da escola, os alunos vão e vem como ciclo que na frente está no ponto de finalizar. O vencedor da Palma de Ouro em Cannes 2003 é um quebra-cabeça sobre uma juventude regata a pressão por todos os lados; e a qualquer momento o caldeirão explodirá.

domingo, março 01, 2026

Socorro!

(Send Help!, EUA, 2026)
Direção: Sam Raimi
Elenco: Rachel McAdamns, Dylan O´Brian, Edyll Ismael, Dennis Haysbert.

Linda é uma funcionária extremamente eficiente e está na expectativa de uma grande promoção em sua empresa. No entanto, o seu chefe morre e é substituído pelo seu filho mauricinho que tem outros planos que deixa Linda furiosa. Em virtude de seu comportamento arisco, o novo chefe Bradley decide lhe designar para uma missão na Tailândia. Mas na viagem para Ásia o avião em que se encontra Bradley e Linda sofre um acidente e ambos param em uma ilha deserta. E tal condição demonstra o tato de Linda pela sobrevivência...e também um lado mais selvagem que o de costume.
Após passar uma temporada focada em filmes de fantasia, finalmente Sam Raimi retorna ao tom galhofa que o definiu em Hollywood. Em Socorro! o cineasta faz uma mistura maluca de Triângulo da Tristeza com Louca Obsessão. Aqui, Raimi realiza uma crítica sobre as relações profissionais mas com o pé no exagero em que o humor e cenas nojentas andam juntas. Assim, retornando ao seu terreno seguro, o diretor realiza uma ótima sessão da tarde em que a atriz Rachel McAdamns deita e rola no absurdo e faz uma personagem cativante. Dessa forma, Socorro! se torna uma divertida comédia que zomba da hierarquia em qualquer estratos vide profissional, social.

sexta-feira, fevereiro 20, 2026

Destaques nos Cinemas

O MORRO DOS VENTOS UIVANTES

(Wuthering Heights, Inglaterra, 2026) de Emerald Fannell
Drama. Jovem casal não conseguem consumar a relação ao viver na opressiva Inglaterra da era vitoriana.







A HISTÓRIA DO SOM

(The History of Sound, Inglaterra/EUA, 2025) de Oliver Hermanus
Drama. Dois estudantes se envolvem profissionalmente e afetivamente em plena Primeira Guerra Mundial.







ARCO
(França, 2025) de Ugo Bievenu
Animação. No futuro, um menino passa por um arco-íris que o faz voltar ao tempo.

domingo, fevereiro 15, 2026

Lançamentos nos Streamings

O GRANDE HOTEL BUDAPESTE
(The Grand Hotel Budapeste, EUA, 2014) de Wes Anderson
Netflix
Comédia. As aventuras de um gerente de hotel na Europa caótica entre as duas grandes guerras mundiais.


JUNTOS
(Together, EUA, 2025) de Michael Shanks
Amazon Prime
Terror. Após caírem num misterioso buraco, casal inicia experiências fora do normal na sua rotina.


METROPOLIS

(Alemanha, 1927) de Fritz Lang
Mubi
Ficção cientifica. No futuro diatópico a sociedade é divida entre a elite que vive na superfície e o proletariado sobrevive no submundo de uma grande metrópole.



PIXOTE: A LEI DO MAIS FRACO
(Brasil, 1980) de Hector Babenco
Mubi
Drama. A triste trajetória de um menino abandonado por todos e sua luta pela sobrevivência.




PRISCILLA, A RAINHA DO DESERTO

(The Adventures of Priscilla, Quuen of the Desert, Austrália, 1994) de Stephan Elliott
Mubi
Comédia. Três drag queens vivem grandes experiências em uma longa viagem de carro na Austrália. 

3 FACES

(Three Faces, Irã, 2018) de Jafar Panahi
Mubi
Drama. A trajetória de três atrizes em períodos distintos da história do Irã.

terça-feira, fevereiro 10, 2026

Morra, Amor

(Dye My Love, Inglaterra/EUA, 2025)
Direção: Lynne Ramsay
Elenco: Jennifer Lawrence, Robert Pattinson, Sissy Spacek, Nick Nolte.

Grace e Jackson é um jovem casal que inicia sua vida de casados na antiga casa de um parente que fica uma zona rural de uma pequena cidade. Com a chegada do primogênito, Grace - que tem ambição de ser escritora - passa por estabilidade emocional crescente na isolada casa somada a indiferença do marido. Tais elementos afetam e abalo a relação familiar.
Em Morra, Amor, a ótima cineasta britânica Lynne Ramsay retorna ao tema da maternidade em que ela já botou de forma esplêndida com seu filme mais famoso, Precisamos Falar Sobre o Kevin. Mas se o filme de 2011 é uma investigação sobre os dilemas de uma mãe; em seu último filme a diretora explora uma mãe em estado de ebulição. Retrata uma possível depressão pós-parto que vai aflorando a um comportamento mais violento. E o foco na narrativa mira totalmente na Grace o que diminui Jackson na narração. E isso é bom pois diminui as chatas discussões de relacionamento tão comum e banal no cinema. Dessa forma, a ótima Jennifer Lawrence fica à vontade para tornar protagonista em uma mulher que vai enlouquecendo e tornando tudo imprevisível. Não é de estranhar sua escalação pois às vezes o enredo lembra um pouco o simbólico Mãe! (2018). Morra, Amor não é tão poderoso como Precisamos Falar Sobre o Kevin mas registra uma cineasta que é mestre em estudo de personagem. E que vai fundo na análise do caos interior humano. Independente de gênero.

quinta-feira, fevereiro 05, 2026

Hamnet: A Vida Antes de Hamlet

(EUA/Inglaterra, 2025)
Direção: Chloé Zhao
Elenco: Jessie Buckley, Paul Mescal, Emily Watson, Jacobi Jupe.

Na Inglaterra medieval vive Agnes, uma mulher singular que tem uma forte conexão com a natureza (uma característica comum na sua família). Isso atrai a atenção de William, um jovem castrado pelo patriarcado de sua família. A liberdade de Agnes é a força que move William para um forte amor entre os dois e o motor para se afastar do pai dominador. Agnes e William constituem uma linda família até a perda de um dos entes que abala a relação dos dois. 
Após o merecido sucesso do lindo Nomadland (2020), a cineasta Chloé Zhao retorna as telas do cinema de forma surpreendente. Se os seus filmes anteriores a pegada de documentário era palpável; agora na adaptação do romance de Maggie O´Farrell, a cineasta chinesa modela a mão ao realizar um drama em que a câmera capta o ambiente em volta de uma mulher ímpar (e muito inspiradora as obras do mestre britânico). Mas o olhar sensível continua intacto. Ao filmar um grande escritor sobre os olhos de sua esposa, a diretora dá vida a uma mulher aparentemente livre de conceitos sociais mas que dentro apresenta dores de cortar a alma como a perda de um ente querido (mãe, filho). Assim, Hamnet: A Vida Antes de Hamlet surpreende ao expor um novo olhar do clássico máximo da literatura inglesa, Hamlet. Com uma produção caprichada, o ponto alto vai para o elenco em que Paul Mescal brilha ao dar vida aos tormentos e o amor à sua família. Mas é Jessie Buckley que domina ao expor a força de Agnes em uma entrega total as dores particulares da personagem. Assim, Hamnet: A Vida Antes de Hamlet é um belo filme sobre a dor do luto e ao mesmo tempo revela como a arte é uma ferramenta fundamental para o processo da tristeza.

domingo, fevereiro 01, 2026

The Mastermind

(Inglaterra/EUA, 2025)
Direção: Kelly Reichardt
Elenco: Josh O´Connor, Alana Haim, John Magaro, Hope Davis.

No início da década de 1970, JB Mooney é um frustrado homem casado e pai de dois filhos. Um fracassado por não ter status (mesmo filho de juiz) e uma carreira profissional exemplar. Pelo contrário, seu descontentamento social só faz alimentar ideias que entram no limite do comportamento questionado. Ao observar que o museu de sua cidade tem falhas de segurança,  ele decide realizar um assalto roubando quadros famosos. Se a execução foi bem sucedida, a sua consequência não era exatamente o que JB esperava.
A diretora Kelly Reichardt (First Cow) realiza em seu último filme uma divertida e melancólica visão de um jovem totalmente deslocado com tudo que há em sua volta nos Estados Unidos do início da década de 1970. O olhar nostálgico e carinhoso da diretora sobre um período de turbulência social se une a trilha de um jovem fracassado, e que a sua estupidez deixa o público com pena de JB. É inevitável comparar ao clássico Fargo dos irmãos Cohen. Mas a diferença é que o ambiente gelado do filme de 1996 é substituído pelo tom solar e cores quentes (mesmo no frio) da linda fotografia de Christopher Blauvelt. E a atuação de Josh O´Connor comove a humanizar um homem que tem apenas uma ideia boba enquanto o mundo pega fogo. Assim, The Mastermind é um retrato de um homem querendo sair das amarras sociais...mas as suas ideias tolas só geram combustível para mais frustração.

domingo, janeiro 25, 2026

Globo de Ouro 2026

 



No segundo domingo de 2025 iniciou o pontapé das premiações televisionadas da temporada que é o Globo de Ouro. E nesta edição, revelou o que já demonstrava em dezembro: a consagração de Paul Thomas Anderson. Uma Batalha Após a Outra foi o filme mais premiado da noite e o grande diretor abocanhou - merecidamente - três dos mais importantes prêmios. já a surpresa foi a vitória de Hamnett: A Vida Antes de Hamlet na categoria de melhor filme drama, mas Pecadores (que era o favorito nesta categoria) levou dois prêmios incluindo o de bilheteria.

Mas a noite serviu mesmo para saber como será a premiação dos filmes internacionais. Com uma lista e participação de filmes de várias nacionalidades em diversas categorias o Globo de Ouro revelou que O Agente Secreto realmente está em alta nos EUA. O filme de Kléber Mendonça Filho saiu na frente e ganhou nesta categoria (enquanto o favorito Valor Sentimental levou de ator coadjuvante) e ainda de quebra Wagner Moura levou de melhor ator, tornando o Globo de Ouro 2026 um ano histórico do cinema brasileiro pois é a primeira vez que uma produção nacional ganha dois prêmios. E assim, existe a chance real do Brasil ganhar pela segunda vez consecutiva o Oscar de melhor filme internacional.



***


A lista dos vencedores do Globo de Ouro 2026:


Melhor Filme - Drama: Hamnet: A Vida Antes de Hamlet

Melhor Filme - Comédia: Uma Batalha Após a Outra

Melhor Filme Estrangeiro: O Agente Secreto (Brasil)

Melhor Longa em Animação: Guerreiras do K-Pop

Maior Realização Cinematográfica e em Bilheteria: Pecadores

Melhor Direção: Paul Thomas Anderson (Uma Batalha Após a Outra)

Melhor Ator - Drama: Wagner Moura (O Agente Secreto)

Melhor Ator - Comédia: Timothée Chalamet (Marty Supreme)

Melhor Atriz - Drama: Jessie Buckley (Hamnett: A Vida Antes de Hamlet)

Melhor Atriz - Comédia: Rose Byrne (Se Eu Tivesse Pernas, Ti Chutaria)

Melhor Ator Coadjuvante: Stellan Skarsgard (Valor Sentimental)

Melhor Atriz Coadjuvante: Teyana Taylor (Uma Batalha Após a Outra)

Melhor Roteiro: Uma Batalha Após a Outra

Melhor Trilha Sonora: Pecadores

Melhor Canção: Guerreiras do K-Pop

terça-feira, janeiro 20, 2026

Destaques nos Cinemas

JOVENS MÃES
(Jeunes Merés, Bélgica, 2025) de Luc e Jean-Pierre Dardenne
Drama. A rotina de cinco garotas que estão num abrigo que acolhem jovens grávidas.




SE EU TIVESSE PERNAS, TI CHUTARIA

(If I Had Legs I´d Kick You, EUA, 2025) de Mary Bronstein
Drama. Mãe solitária entra em colapso após um vazamento em seu apartamento.



SIRAT
(Espanha, 2025) de Oliver Laxe
Drama. Pai espanhol destina ir a uma rave no Marrocos em busca da filha desaparecida.



MARTY SUPREME

(EUA, 2025) de Josh Safdie
Drama. Prodígio no ping-pong, jovem ambicioso não hesita em aplicar golpes para ganhar dinheiro.



A ÚNICA SAÍDA

(Eojjeolsuga Eobsda, Coréia do Sul, 2025) de Park Chan-Wook
Suspense. Homem de meia idade decide eliminar os seus concorrentes para conseguir uma vaga de um emprego.



HAMNET: A VIDA ANTES DE HAMLET
(EUA/Inglaterra, 2025) de Chloe Zhao
Drama. O luto e a dor da perda de um filho sobre a ótica da esposa do escritor Shakespeare.

quinta-feira, janeiro 15, 2026

Lançamentos nos Streamings

BASTARDOS INGLÓRIOS
(Inglorius Bastards, EUA, 2009) de Quentin Tarantino
Netflix
Suspense. Um grupo de americanos e uma jovem resistem a invasão nazista em Paris.



CEMITERIO DO ESPLENDOR
(Rak Ti Khon Kaen, Tailândia, 2015) de Apichatpong Weerasethakul
Mubi
Drama. Senhora cuidada de soldados que inexplicavelmente adormecem e não acordam mais.

A LONGA CAMINHADA DE BILLY LYNN
(Billy Lynn´s Long Halftime Walk, EUA, 2017) de Ang Lee
HBO Max
Drama. Jovem soldado é recebido com pompas nos EUA após sobreviver a um ataque na guerra do Iraque.



MORRA, AMOR

(Die My Love, Inglaterra, 2025) de Lynne Ramsay
Mubi
Drama. Após se isolar numa casa de campo, mulher sofre um colapso que coloca em cheque o seu casamento.


PEQUENAS CARTAS OBSCENAS
(Wicked Little Letters, Inglaterra, 2023) de Thea Sharrock
Amazon Prime
Comédia. Em uma cidade inglesa conservado dos anos de 1920 entre em alvoroço quando recebem cartas obscenas.



RAIN MAN
(EUA, 1988) de Barry Levinson
Netflix
Drama. Jovem yuppie tem uma descoberta familiar inusitada: um irmão mais velho autista.



TOURO INDOMAVEL
(EUA, 1980) de Martin Scorsese
Mubi
Drama. Boxeador impulsivo e violento sofre com o seu comportamento intempestivo.


O ULTIMO AZUL
(Brasil, 2025) de Gabriel Mascaro
Netflix
Drama. Idosa foge de um fim institucional em busca de refugio na floresta.

sábado, janeiro 10, 2026

Uma Batalha Após a Outra

(One Battle After Another, EUA, 2025)
Direção: Paul Thomas Anderson
Elenco: Leonardo DiCaprio, Sean Penn, Chase Infiniti, Teyana Taylor.

Bob e Perfídia fazem parte de um grupo de esquerda que tenta desestabilizar o governo autoritário dos Estados Unidos com atitudes agressivas. No entanto, quando Perfídia se envolve com o militar Steven, ela cai numa armadilha e acaba delatando os colegas que são obrigados a se esconder com outras identidades. Quinze anos depois Bob e sua filha Willa são perseguidos por Steven por causa do seu passado com Perfídia.
Após a comédia dramática retrô Licorice Pizza (2021), o cineasta PT Anderson dá uma guinada em sua carreira em outra adaptação de Thomas Pynchon. Se em Vicio Inerente (2014) o diretor imprime os ácidos anos de 1970; em Uma Batalha Após a Outra, Anderson reforça o porquê que o cineasta estadunidense é um dos melhores cineastas da sua geração. Aqui, o diretor surpreende ao impor o caos social e político atual sob a forma de um filme de ação em que a adrenalina é constante. A fantástica trilha sonora quase operística de Jonny Greenwood é fundamental para deixar o público sem fôlego com um som que nunca para no decorrer da projeção. A linda fotografia de Michael Bauman que sabe registrar ambientes internos e a loucura das áreas urbanas e a secura do oeste dos EUA (sem esquecer de citar a incrível perseguição de carros em uma estrada que entrará na história do cinema). O roteiro emocionante (e hilário) de Anderson que tira chacota da direita e zomba da esquerda é um retrato de um mundo dividido e bipolar. Diante de tantas qualidades e o elenco está fantástico em que Leonardo DiCaprio arrisca ao fazer um personagem a lá O Grande Lebowski dos irmãos Coen. Mas é Teyana Taylor que seduz como a provocativa revolucionária perfídia, e o zen Benício Del Toro muito engraçado e a vontade. Sem dúvida nenhuma, Uma Batalha Após a Outra já entra na lista das obras-primas de Anderson ao publicar uma caótica América de Trump.

segunda-feira, janeiro 05, 2026

Nouvelle Vague

(França/EUA, 2025)
Direção: Richard Linklater
Elenco: Guillaume Marbeck, Zoey Deutch, Aubry Dullin, Bruno Dreyfurst.

Na França de 1959 o cinema local vê os seus cineastas criarem um novo movimento cinematográfico que agita o ambiente cultural de Paris. E neste momento, o crítico de cinema Jean-Luc Godard ganha a chance de realizar o seu primeiro filme chamado Acossado. A questão é que Godard demonstra que está longe de ser um cineasta convencional. E esse desprezo pelas regras torna as filmagens um verdadeiro caos em que o elenco e a equipe técnica começa a questionar sobre o futuro e a qualidade do filme.
O mestre do cotidiano Richard Linklater dá uma grande guinada em seu primeiro filme não falado em inglês. Como o título sugere a obra aborda um dos movimentos cinematográficos mais importantes da sétima arte. E aqui, o diretor realiza com classe e elegância os bastidores caóticos do clássico do movimento. Uma pena que um público que não está familiarizado com a Nouvelle Vague ficará perdido com a quantidade de informação e aparecimentos dos responsáveis pelo movimento. Mas para os cinéfilos, o filme é um deleite. Além do respeito que o diretor tem com o material, visualmente o filme impressiona a começar pela linda fotografia de David Chambille que emula com perfeição o visual original do filme de 1960. O design de produção e figurino caprichados nos transporta com facilidade ao fim dos anos de 1950. E o elenco impressiona pela semelhança com as personalidades reais - além de arrancar boas interpretações. Assim, Nouvelle Vague é um belo trabalho de um cineasta que - perceptivelmente - admira e respeita um momento histórico do cinema mundial.