segunda-feira, janeiro 05, 2026

Nouvelle Vague

(França/EUA, 2025)
Direção: Richard Linklater
Elenco: Guillaume Marbeck, Zoey Deutch, Aubry Dullin, Bruno Dreyfurst.

Na França de 1959 o cinema local vê os seus cineastas criarem um novo movimento cinematográfico que agita o ambiente cultural de Paris. E neste momento, o crítico de cinema Jean-Luc Godard ganha a chance de realizar o seu primeiro filme chamado Acossado. A questão é que Godard demonstra que está longe de ser um cineasta convencional. E esse desprezo pelas regras torna as filmagens um verdadeiro caos em que o elenco e a equipe técnica começa a questionar sobre o futuro e a qualidade do filme.
O mestre do cotidiano Richard Linklater dá uma grande guinada em seu primeiro filme não falado em inglês. Como o título sugere a obra aborda um dos movimentos cinematográficos mais importantes da sétima arte. E aqui, o diretor realiza com classe e elegância os bastidores caóticos do clássico do movimento. Uma pena que um público que não está familiarizado com a Nouvelle Vague ficará perdido com a quantidade de informação e aparecimentos dos responsáveis pelo movimento. Mas para os cinéfilos, o filme é um deleite. Além do respeito que o diretor tem com o material, visualmente o filme impressiona a começar pela linda fotografia de David Chambille que emula com perfeição o visual original do filme de 1960. O design de produção e figurino caprichados nos transporta com facilidade ao fim dos anos de 1950. E o elenco impressiona pela semelhança com as personalidades reais - além de arrancar boas interpretações. Assim, Nouvelle Vague é um belo trabalho de um cineasta que - perceptivelmente - admira e respeita um momento histórico do cinema mundial.

quinta-feira, janeiro 01, 2026

Valor Sentimental

(Affeksjonsverdi, Noruega, 2025)
Direção: Joachim Trier
Elenco: Renate Reinsve, Stellan Skarsgard, Elle Fanning, Inga Ibsdotter Lilleaas.

Nora é uma atriz que passa por atritos na carreira por causa da recente morte da mãe, e principalmente por saber da vinda do seu pai que há anos não contato com a filha. Gustav, o pai ausente é um cineasta consagrado que reencontra a filha e lhe faz uma proposta: atuar em seu novo filme. Mas Nora recusa o convite e a presença do pai aflora antigos ressentimentos dela e de sua irmã Agnes.
Após o belo e solar A Pior Pessoa do Mundo, o cineasta norueguês Joachim Trier dá uma nova guinada com seu novo filme. Assim, Valor Sentimental se revela um impressionante amadurecimento da carreira do diretor ao impor com propriedade um tom mais melancólico. Aqui, a obra mescla memória, o poder da arte e relacionamentos familiares mal correspondidos. Com uma fotografia acinzentada e com pouca chance de cores de Kasper Tuxen Andersen, o filme revela a amargura entre pais e filhos. É impossível não comparar com dois clássicos do mestre Ingmar Bergman. De Sonata de Outono, o diretor introduz o seu estilo mais pop e moderno na frágil relação pai e filha (e as suas queixas e cobranças afetivas). E Persona remete a personagem da Elle Fanning se emular cada vez mais com a Nora. Dessa forma, Trier usa  o mundo do cinema (ou outra forma de arte) para criar um mosaico de traumas emocionais que o tempo não teve tempo de cicatrizar. O elenco está soberbo dando destaque para Stellan Skarsgard que cria uma figura paterna falha e humana sem tornar um típico vilão. É perceptível o peso que ele carrega pela sua ausência na tela. E Renate Reinsve imprime uma amargura mas sem esquecer de injetar carisma e um jeito maroto. Assim, Valor Sentimental é uma obra de arte que emociona ao tocar em feridas abertas a respeito de ausências sentidas.