sexta-feira, julho 05, 2019

A Criada

(Ah-ga-ssi, Coréia do Sul, 2016)
Direção: Park Chan-Wook
Elenco: Min-Hee Kim, Kim Tae-Ri, Ha Jung-Woo, Cho Jin-Woong.

Se existe um cinema que é tudo menos óbvio é o cinema coreano. E com o belo A Criada, a Coréia do Sul demonstra maturidade espetacular a começar pelo visual. O design de produção é de cair o queixo em que o figurino, direção de arte e fotografia beiram quase a perfeição. Cada frame parece uma pintura. Mas a obra de Park Chan-Wook tem outros atrativos como o intricado roteiro que vai surpreender o espectador em parceria com a inteligente edição de Kim Sang-Bum que vai e volta no tempo mostrando novas camadas a respeito de uma jovem que ajuda um pilantra a dar um golpe do baú em uma herdeira rica e instável. Saber mais da estória estraga o fascínio reservado. Abordando temas como submissão, dominação e amor, A Criada é um filme que deixaria Alfred Hitchock orgulhoso; uma mistura de gêneros que não perde a conexão, uma extravagância que só a Coreia do Sul é capaz de produzir.

segunda-feira, julho 01, 2019

Um Sonho de Liberdade

(The Shawshank Redemption, EUA, 1994)
Direção: Frank Darabont
Elenco: Tim Robbins, Morgan Freeman, Bob Gunton, William Sandler.

Quando uma obra de um bom narrador, Stephen King, cai nas mãos de um competente cineasta especialista em contar uma boa estória, Frank Darabont, o resultado é um deleite. Não é pra menos que essa união gera ótimos filmes em que o ponto alto é a obra-prima Um Sonho de Liberdade.
Sinpse: Andy Dufresne é jogado na Penitenciária Estadual Shawshank acusado de crime passional e lá faz amizade com vários "colegas" especialmente o malandro gente boa Red.
Com uma gama de personagens, Darabont, entrega um belo roteiro sobre ilusão e especialmente na humanização de pessoas marginalizadas. Em tom quase de fábula mostra a nossa incrível habilidade de se adaptar em qualquer situação mas também aborda a falta de liberdade tanto fora como dentro das grades (afinal devemos seguir a risca as convenções sociais que existe em qualquer lugar). E de plus entrega uma montagem ágil de Richard Francis-Bruce, e a bela fotografia do mestre Roger Deakins. E por fim concede uma atuação magistral do elenco, especialmente de Morgan Freeman numa interpretação contida, calma mas que não esconde a sensação de perder anos de vida na prisão e se sentir necessário apenas nesta realidade.

sábado, junho 15, 2019

Destaque nos cinemas

DOR E GLÓRIA
(Dolor y Gloria, Espanha, 2019) de Pedro Almodóvar
Drama. Cineasta recorda de sua vida pessoal e profissional quando passa por uma crise existencial.




GRAÇAS A DEUS
(França/Bélgica, 2019) de François Ozon
Drama. Rapaz decide escrever uma carta alegando que foi abusado sexualmente por um padre mas encontra a Igreja Católica como um obstáculo.







DIVINO AMOR
(Brasil/França, 2019) de Gabriel Mascaro
Drama. Servidora de um cartório tem o hábito de aconselhar casais a não se divorciar mesmo que o seu casamento esteja em crise.

segunda-feira, junho 10, 2019

Lazzaro Felice

(Itália/França/Alemanha/Suíça, 2018)
Direção: Alice Rohwacher
Elenco: Adriano Targiolo, Tommaso Ragno, Alba Rohwacher, Nicoletta Braschi.

Lazzaro é um jovem que vive numa comunidade rural no sul da Itália sobrevivendo como "vassalo" da Marquesa Alfonsina que os explora na plantação de tabaco como se vivesse no século 19, mas a estória se passa nos dias atuais.
Lazzaro Felice é uma pequena surpresa; uma dramédia que aborda a alienação e a exploração como um ciclo atemporal, apartidário e social. Como diria a Marquesa: "todo mundo explora todo mundo". E o filme de Alice Rohwacher se encaixa perfeitamente em uma sessão dupla com o clássico Tempos Modernos (1936) afinal o protagonista de Lazzaro Felice apresenta traços chapliniano; um jovem ingênuo vítima das circunstâncias da vida. Mesmo que perca força na metade final da estória ao introduzir o fantástico, Lazzaro Felice é um filme interessante em que a bondade é um sentimento parecido com um nevoeiro: quando o sol aparece (a realidade) ele se dissipa.

quarta-feira, junho 05, 2019

Border

(Suécia/Dinamarca, 2018)
Direção: Ali Abbasi
Elenco: Eva Melander, Eero Milonoff, Jörgen Thorsson, Viktor Akerblom.

Em um momento que eu estou fugindo das produções da Marvel e DC Comics - me dá tédio - constato que a produção escandinava Border é de certa maneira um originalíssimo e instigante filme de super-herói. Aqui a "heroína" é Tina, uma mulher de feições primitiva e repulsiva mas que tem um faro excepcional que a usa a serviço da sociedade, tem a sua rotina alterada com a chegada de Vore, um homem misterioso que apresenta os mesmos traços da protagonista.
Graças ao bom roteiro, o diretor Ali Abbasi soube dar várias camadas ao expor a saída de Tina de sua confortável bolha: a importante conexão com a natureza (afinal homem é bicho complicado); a maldade (as marcas eternamente vivas para quem é diferente); a moralidade (vale a pena acreditar na sociedade?). Com uma ótima fotografia de Nadim Carlsen que capta belas imagens da floresta, o grande destaque é a impressionante maquiagem de Pamela Goldammer e Göran Lundström (merecidamente indicado ao Oscar) que deixa a atriz Eva Melander mais animalesca, perturbadora e muito humana. Border é um filme que superou as minhas expectativas ao lidar com o desconforto para quem é diferente e a difícil arte de acreditar na humanidade.

sábado, junho 01, 2019

Chuva é Cantoria na Aldeia dos Mortos

(Portugal/Brasil, 2018)
Direção: Renée Nader Messora e João Salaviza
Elenco: Henrique Ihjãc Kharô, Raene Kôtô Krahô.

Ihjãc é um jovem índio que vive em sua tribo distante da civilização. Com uma vida estabelecida, o protagonista sofre pela morte do pai e mais ainda pela responsabilidade de suceder o papel de seu pai na comunidade.
Surpreendente filme luso-brasileiro todo falado em dialeto indígena que mostra o índio não como uma figura antropológica; mas sim um ser passando por angústias universalmente humanas. Com uma linda fotografia naturalista da co-diretora Renée Nader Messora, o filme recorda os trabalhos do tailandês Apichatpong Weerasethakul ao mesclar o natural, o sobrenatural e a critica social. E com uma tremenda segurança os diretores portugueses Renée Nader Messora e João Salaviza souberam abordar com esmero temas como luto, o de não ser compreendido, e a pressão de exercer uma função quando não se está preparado. No fim fica a sensação amarga que todo o universo harmonioso encontrado na tribo um dia dissipará com a ameaça branca. Com um futuro triste, o filme se antecipa e vira uma crônica aterradora do governo Bolsonaro e sua falta de projeto humanista.