sexta-feira, abril 10, 2020

8 e 1/2

(Otto e Mezzo, Itália, 1963)
Direção: Federico Fellini
Elenco: Marcello Mastroianni, Anouk Aimée, Sandra Milo, Claudia Cardinale.

Como uma espécie de continuação de A Doce Vida, Fellini vai mais fundo em sua persona e escancara de vez ao revelar toda a sua intimidade. A começar pelo título, aqui temos um  famoso cineasta internado em um spa/clinica após uma crise em meio às filmagens de seu oitavo e meio filme. E como um mágico, o mestre mistura fantasia e existencialismo com uma segurança impressionante. A começar pela linda fotografia de Gianni Di Venanzo que usa um preto e branco que ressalta o realismo misturado ao onírico. E a energética trilha sonora de Nino Rota brinca com a linguagem cinematográfica. Mas se a princípio o filme fala da pressão nos bastidores do cinema no qual o seu enredo se passa quase todo que inteiramente no spa e no set de filmagem, Fellini amplia o leque e torna 8 e 1/2 em uma potente alegoria sobre memória, culpa e a falta de amor materno (em que A Doce Vida, o diretor revela distanciamento com o pai) através do esforço incrível do editor Leo Cattozzo que superou as expectativas ao mesclar com maestria o caos presente e os fatos traumáticos do passado. Com um final otimista e emocionante, Fellini é sempre uma prova de que depois da tempestade vem a calmaria.

domingo, abril 05, 2020

A Doce Vida

(La Dolce Vita, Itália, 1960)
Direção: Federico Fellini
Elenco: Marcello Mastroianni, Yvonne Furneaux, Anita Ekberg, Alan Cuny

Antes de ser cineasta, o mestre Fellini foi jornalista em Roma. E com essa bagagem, o diretor criou o mítico A Doce Vida. Um super charmoso Marcello Mastroianni entra no rol dos grandes atores ao personificar o auto ego do diretor; um paparazzi sedutor especializado em matérias sensacionalistas, e observando o vazio e o desespero dos romanos, além de testemunhar burgueses na orgia sem repressão. Roma de Fellini é devasso e sagrado. Mas com um toque pessoal é um no fantástico - graças aos impressionantes movimentos de câmera em que vários personagens pulam para a tela - o diretor não tem medo de expor os seus medos, imperfeições e mostra os seus problemas familiares (a ausência do pai), o tédio, a melancolia e o senso de deslocamento como Marcello infeliz com a sua profissão; a namorada desequilibrada;  a atriz sueca sinônimo de beleza mas que é mal tratada pelo amante; o amigo que simboliza a maturidade e a sensatez mas que tem um fim trágico. Em A Doce Vida as pessoas precisam representar algo que não lhe convém para poder viver. Roma é um caldeirão de pessoas, culturas que fascina aos mais desavisados mas por dentro mostra seres se esforçando para sair dos seus casulos. Sem dúvida um filme que representa toda a inquietação que foi a década de 60. Aos olhos de hoje não é um filme fácil mas indispensável e atual ao imprimir a loucura da sociedade de uma forma original.

quarta-feira, abril 01, 2020

Jóias Brutas

(Uncut Gems, EUA, 2019)
Direção: Benny Safdie e Josh Safdie
Elenco: Adam Sandler, Idina Menzel, Julia Fox, Kevin Garnett

É muita coragem abrir um filme com imagens de um exame proctológico do protagonista - o que leva a crer que o personagem principal, Howard Ratner, vai fazer merda no decorrer do filme. É esse é o principal mote dramático: Ratner é um homem que vive sobre o tesão do risco sem medir consequências e sem se portar com todos a sua volta.
Com um roteiro ágil, os irmãos Safdie recordam demais da adrenalina de alguns filmes de Martin Scorsese (que é o produtor executivo do filme) como Depois de Horas e Os Bons Companheiros. Mas o destaque do filme vai para a energética montagem de Benny Safdie e Ronald Bronstein que deixa o público sem fôlego (um absurdo a sua não indicação ao Oscar) e a atuação explosiva de Adam Sandler que já demonstrara que é um bom ator quando quer e aqui ele arrebenta ao humanizar um ser homem sem escrúpulo algum. Com um ar realista, os irmãos Safdie sabe manipular a platéia que se pega torcendo por Ratner mesmo que ele nunca pare de fazer merda.

sexta-feira, março 20, 2020

Festival de Sundance 2020

O mês de janeiro é o pontapé para o primeiro grande festival do ano: Sundance.  Na competição ótimos filmes foram exibidos como o autobiográfico Minari de Lee Isaac Chung (EUA) em que na década de 1980, uma família de coreano tenta o sonho americano no Arkansas. Esta foi a obra mais aclamada do festival e abocanhou vários prêmios. Outros destaques: Promising Young Woman de Carey Mulligan (Reino Unido/EUA) em que a própria diretora, a atriz Carey Mulligan, dá vida a uma mulher cedendo de vingança contra homens abusadores; Never Rarely Sometimes Always de Eliza Hittman (Reino Unido/EUA) conta a estória de duas adolescentes em busca de aborto em Nova Iorque; Zola de Janicza Bravo (EUA) um roadmovie em que uma stripper passa por situações bizarras em uma viagem para a Flórida; Nine Days de Edson Costa (EUA) uma ficção cientifica dirigida por um brasileiro (e que ganhou o prêmio de roteiro) em que um homem entrevista várias almas em busca de um corpo para retornar a Terra; The Father de Florian Zeller (Reino Unido/EUA) que relata conflito familiar entre pai e filha; The Glorias de Julie Taymor (EUA) é uma biografia da ativista feminista Gloria Steinem.

***

A lista dos vencedores do Festival de Sundance 2020:

FILME AMERICANO:
Prêmio da Audiência: Minari de Lee Isaac Chung
Grande Prêmio do Júri: Minari de Lee Isaac Chung
Prêmio de Diretor: Radha Blacnk - The 40-Year-Old Version
Prêmio de Roteirista Waldo Salt: Edson Oda - Nine Days
Prêmio Especial do Júri: Never Rarely Sometimes Always de Eliza Hittman
Prêmio Especial do Juri para Filme Amador: Shirley de Josephine Decker
Prêmio Especial do Júri para Elenco: Charm City Kings de Angel Manuel Soto

FILME ESTRANGEIRO:
Prêmio da Audiência: Sin Señas Particulares (México/Espanha) de Fernanda Valadez
Grande Prêmio do Júri: Yalda, A Night for Forgiveness (Ira/França/Alemanha/Suíça/Luxemburgo) de Massoud Bakhsh
Prêmio de Diretor: Maïmouna Doucouré - Cuties (França)
Premio Especial do Júri para Atuação: Ben Whishaw - Surge (Reino Unido)
Prêmio Especial do Júri de Melhor Roteiro: Fernanda Valadez e Astrid Rondero - Sin Señas Particulares (México/Espanha)
Prêmio Especial do Júri por Cineasta Visionario: Lemohang Jeremiah Mosese - This Is Not a Burieal, It´s a Resurrection (Lesoto/África do Sul/Itália)

terça-feira, março 10, 2020

A História Oficial

(La Historia Oficial, Argentina, 1985)
Direção: Luis Puenzo
Elenco: Norma Aleandro, Héctor Alterio, Chunchuna Villafañe, Analia Castro.

A História Oficial é um marco não somente do cinema argentino mas do cinema latino-americano por ser o primeiro filme desta região a ganhar o Oscar de melhor filme internacional. Super premiado, a obra portenha é um belo melodrama sobre o despertar político e social de uma mulher (professora de história o que soa até estranho) sobre os terríveis acontecimentos da ditadura argentina. O ótimo roteiro de Luis Puenzo e Aída Bortinik aproveita várias possibilidades do enredo e vai além do político ao abordar uma visão feminina sobre maternidade e os terríveis acontecimentos nos porões da ditadura; fatos estes que forçaram as argentinas irem às ruas em busca de um basta. Com uma produção caprichada, o diretor Luis Puenzo faz um trabalho cuidadoso sobre essa deplorável época; mas a trilha sonora extremamente datada de Maria Elena Walsh e Atilio Stampone e as cenas que acontecem na sala de aula poderiam ser cortadas. Mas a força do filme vem da estupenda atuação da grande atriz Norma Aleandro que sabe extrair verdade especialmente no fim doloroso do filme. E é lamentável em pleno Século 21 ter gente que defende a ditadura e o autoritarismo militar como resposta a determinadas crises políticas, financeiras e sociais.

quinta-feira, março 05, 2020

1917

(Inglaterra/EUA, 2019)
Direção: Sam Mendes
Elenco: George MacKay, Dean-Charles Chapman, Mark Strong, Andrew Scott.

Nos últimos anos o Oscar premiou cineastas que usaram com maestria longos planos-sequências como Alfonso Cuaron (Gravidade e Roma) e Alejandro Gonzalez Inarritu (Birdman e O Regresso). Assistindo 1917, o diretor Sam Mendes usa e abusa do mesmo artifício mesmo sendo inovador ao realizar um filme de guerra em tempo real e sem a participação direta do protagonista em cenas de batalha. Mas também é só isso. O filme ganharia pontos se usasse diálogos mínimos ao invés de investir em frases rasas fruto de um roteiro fraco em toda sua projeção. No entanto a parte técnica é um primor, especialmente na impactante cena da vila em chamas a noite recordando Andrei Tarkovski. Mas até nesse quesito a fotografia do mestre Roger Deakins copia muito o trabalho do outro mestre Emmanuel Lubezki (especialmente em O Regresso). Assim no decorrer da projeção do filme a obra lembra demais Gravidade em conta de uma - previsível - enxurrada de cenas de grande impacto como a queda do avião e a do protagonista no rio. Mas o pior mesmo é transformar a guerra em um ato excitante o que descaracteriza do propósito de relatar o horror que existe nos combates. Não dá para negar o seu ritmo incessante mas como um filme de guerra, 1917 é um ótimo videogame.