terça-feira, agosto 04, 2020

Noites de Cabíria

(Le Notti di Cabiria, Itália/França, 1957)
Direção: Federico Fellini
Elenco: Giulietta Masina, François Périer, Franca Mazi, Amedeo Nazzari

Cabíria é uma mulher que sonha em casar, ser dona de casa, ter filhos...mas o simples fato de ser meretriz e se envolver com homens de estampa duvidosa torna o seu desejo em uma melancólica desilusão.
Noites de Cabíria representa o pontapé inicial do estilo inconfundível do mestre Fellini e uma espécie de embrião para a sua obra-prima A Doce Vida: o descontentamento da protagonista com a desigualdade social de Roma com a vida miserável dos pobres em terrenos baldios, e a burguesia em sua redoma de vidro com os seus dilemas fúteis. Com uma galeria de personagens, Fellini se distancia do realismo e abraça uma crônica sobre a Cidade Eterna em que o cômico aparece lado a lado com o amargo. E o filme não seria o mesmo sem a inesquecível atuação de Giulietta Masina que com um jeito maroto sabe dosar perfeitamente a decepção do destino e a fagulha de esperança. Simplesmente uma Carlitos de saias. Assim, Noites de Cabíria é um lindo drama chapliniano sobre uma prostituta com coração de ouro, bondosa, pura mas que luta constantemente com uma realidade que a joga pra baixo. E ainda de quebra tem o final mais lindo do cinema. Inesquecível.

sábado, agosto 01, 2020

Doutor Jivago

(Doctor Zhivago, EUA, 1965)
Direção: David Lean
Elenco: Omar Sharif, Julie Christie, Geraldine Chaplin, Rod Steiner

Não é nada convidativo assistir um melodrama histórico de mais de três horas de duração, certo? Mas confie em um mestre especialista neste quesito. Assim, David Lean faz um filmaço sobre o turbulento nascimento de uma nação: a União Soviética. Baseado no clássico da literatura de Boris Pasternak, o filme é a biografia do médico Yuri Jivago em que através de seus olhos testemunha a insatisfação do povo perante o império de czar Nicolau; o surgimento da revolução russa (fim da propriedade privada); e os conflitos internos dos "camaradas" ávidos por poder.
E se tratando de David Lean, a produção é um deleite. A fotografia espetacular de Freddie Young; a clássica trilha sonora de Maurice Jarre (com o famoso Tema de Lara). O diretor estava inspiradíssimo nos movimentos de câmera, além de contar com o ótimo roteiro de Robert Bolt. Mas o que mais me impressionou foi a incrível edição de Norman Savage que imprimiu um ritmo perfeito; é aquele filme que as três horas de duração passam voando e que você quer mais. Até a controvérsia participação de Alec Guiness como um parente do protagonista, Yevgraf Jivago, e sua narrativa em off poderia prejudicar a obra mas Lean e o roteirista perceberam que era necessário pois é esse personagem que relata a vida do protagonista. Doutor Jivago é um lindo filme sobre transformações sociais e uma crítica perturbadora sobre o autoritarismo (em de qual posição está esteja).

segunda-feira, julho 20, 2020

Destaque nos cinemas

EM VIRTUDE DA PANDEMIA DO CORONAVÍRUS, INFELIZMENTE, AS EXIBIÇÕES DOS FILMES FORAM INTERROMPIDAS E AS SALAS DE CINEMA FECHADAS TEMPORARIAMENTE.

sexta-feira, julho 10, 2020

Trama Macabra

(Family Plot, EUA, 1976)
Direção: Alfred Hitchcock
Elenco: Barbara Harris, Karen Black, Ed Lauter, Bruce Dern

Último filme do mestre do suspense, Trama Macabra é uma divertida comédia disfarçada de suspense sobre uma vigarista que se faz de vidente para dar um golpe em uma idosa rica mas que nem imagina na enrascada que se meteu.
Diferente dos seus filmes anteriores que flertava a guerra fria ou personagens psicologicamente perturbados, aqui Hitchcock realiza uma obra sem nenhuma ambição e conduz o enredo de uma forma despretensiosa. Fica claro que o diretor se divertiu na realização deste projeto a começar por várias cenas de suspense que ele faz questão de transformar em comédia (a cena do carro desgovernado na estrada; o sequestro do bispo). Até o elenco cai de cabeça no nonsense; e tudo fica mais delicioso com o evidente ar típico da década de 1970. Trama Macabra está longe ser um dos melhores filmes de Hitchcock mas cumpre muito bem o papel de um bom passatempo em uma sessão da tarde descompromissada.

domingo, julho 05, 2020

Fale com Ela

(Hable con Ella, Espanha, 2002)
Direção: Pedro Almodôvar
Elenco: Javier Cámara, Dario Grandinetti, Leonor Watling, Rosario Flores

Só Almodôvar para realizar um insólito drama romântico em que dois casais tem um destino comum: as amadas estão no hospital em coma vegetativo. Se o mestre espanhol é reverenciado pelos seus personagens femininos, em Fale com Ela a sua atenção é totalmente voltada na amizade entre o maduro e sensível Marco e o atencioso e ingênuo (nem tanto) enfermeiro Benigno (que nome!). Com uma linda produção em que a fotografia de Javier Aguirresarobe é almodovianamente colorida e a bela composição da trilha sonora de Alberto Iglesias integra com canções brasileiras (com direito a participação especial de Caetano Veloso).
Vencedor merecidamente do Oscar de melhor roteiro original, Almodóvar vai além em expor a falta de diálogo entre amantes. Fale com Ela aborda solidão, desilusão, amizade e as voltas que o destino faz de um jeito que só o Almodóvar é capaz de narrar. Provocante e reflexivo.

quarta-feira, julho 01, 2020

Eraserhead

(EUA, 1977)
Direção: David Lynch
Elenco: Jack Nance, Charlotte Stewart, Allen Joseph, Jeanne Bates

Poucos são os cineastas que conseguem imprimir seu estilo logo no seu primeiro filme. E o grande David Lynch se enquadra perfeitamente na afirmação acima pois Eraserhead é a síntese de sua marca em toda a sua filmografia: imagens bizarras, cenas de palco, década de 1950, apurado trabalho de som. Se inserisse esse filme no meio da terceira temporada de Twin Peaks faria total sentido pois o DNA singular de Lynch salta aos olhos mesmo passado quarenta anos. E se a estória de um homem apático que se relaciona com uma garota que deu cria a um ser estranhíssimo não faz sentido (poderia ser uma alegoria sobre a paternidade?), essa sempre foi a essência do diretor - que também é artista plástico - em que a sensação é mais importante que um simples contar de história. Se a o mestre Buñuel usou com brilhantismo o surreal como arma para alfinetar a hipocrisia da sociedade; Lynch bebe na mesma fonte como combustão para suas obsessões pessoais para brincar com a própria linguagem cinematográfica.