quinta-feira, outubro 01, 2020

Instinto Selvagem

(Basic Instint, EUA, 1992)
Direção: Paul Verhoeven
Elenco: Michael Douglas, Sharon Stone, George Dzundza, Jeanne Tripplehorn.

Em 1992, Instinto Selvagem fez muito barulho (e ótima bilheteria) em virtude das cenas de perseguição de carros, das tórridas cenas de sexo, e principalmente por apresentar uma personagem abertamente bissexual (acredite, era novidade na época). Passados quase 30 anos (como tempo passa voando), o filme de Paul Verhoeven envelheceu mal graças ao roteiro apelativo e previsível, o sexo é risível, a apagada atuação de Michael Douglas, e como explicar o ridículo final (evidente a mão dos produtores na conclusão). Os poucos pontos positivos a respeito da apuração da morte de um famoso que envolve um investigador e uma suspeita predadora sexual é a boa trilha sonora de Jerry Goldsmith e a atuação de Sharon Stone (que virou estrela com a famosa cena do interrogatório). Copiando descaradamente o clássico Um Corpo Que Cai - a estória se passa em São Francisco, Sharon Stone está a cara de Kim Novak, o jogo de gato e rato entre os dois protagonistas - definitivamente Verhoeven não teve a habilidade de um Brian DePalma ao homenagem Alfred Hitchcock nesta produção. Anos depois o diretor de Robocop corrigiria essa falha com o ótimo e provocativo suspense Elle.

domingo, setembro 20, 2020

Festival de Veneza 2020

O ano de 2020 não está sendo fácil para o mundo...pior ainda para o cinema. Após o cancelamento do Festival de Cannes, os italianos não perderam a esperança e decidiram realizar o Festival de Veneza, o primeiro a ser feito na pandemia. Por conta dessa situação insólita, o grande festival teve que modificar as exibições dos filmes, o que desmotivou a exibição dos filmes dos grandes estúdios e diminuiu a qualidade das produções. No entanto, o festival presidido neste ano pela atriz australiana Cate Blachett investiu pesado em obras dirigidas por mulheres e no fim o prêmio máximo foi parar nas mãos, merecidamente, da cineasta chinesa radicada nos EUA Chloé Zhao com o comovente Nomadland, drama sobre uma viúva que tenta sobreviver após a crise econômica de 2008. Com poucos destaques na competição, o que atraiu os holofotes foi a ótima estréia do mestre espanhol Pedro Almodóvar na língua inglesa com o curta-metragem A Voz Humana. Outras obras que chamaram atenção foram o canadense Pierces of a Woman de Kornél Mundruczó (aborda o luto de uma mulher após perder o filho no parto) e o russo Dear Comrades de Andrei Konchalovsky que reproduz um caso real de uma mulher que se desencanta com o comunismo soviético por causa do desaparecimento de sua filha depois de presenciar um massacre civil promovido pelo governo de Moscou.

***

A lista dos vencedores do Festival de Veneza 2020:


Leão de Ouro: Nomadland (EUA) de Chloé Zhao

Grande Prêmio do Júri: New Order (México/França) de Michel Franco

Melhor Direção: Kiyoshi Kurosawa - Wife of a Spy (Japão)

Melhor Ator: Pierfrancesco Favino - Padrenostro (Itália)

Melhor Atriz: Vanessa Kirby - Pieces of a Woman (EUA/Canadá)

Melhor Roteiro: Chaitanya Tamhane - The Disciple (Índia)

Prêmio Especial do Júri: Dear Comrades (Rússia) de Andrei Konchalovsky

Prêmio Marcello Mastroianni de Revelação: Rouhollah Zamani - Sun Children (Irã)

terça-feira, setembro 15, 2020

Destaques nos cinemas

EM VIRTUDE DA PANDEMIA DO CORONAVÍRUS, INFELIZMENTE, AS EXIBIÇÕES DOS FILMES FORAM INTERROMPIDAS E AS SALAS DE CINEMA FECHADAS TEMPORARIAMENTE.

quinta-feira, setembro 10, 2020

Julieta dos Espíritos

(Giulietta degli Spiriti, Itália/França, 1965)
Direção: Federico Fellini
Elenco: Giulietta Masima, Mario Pisu, Valentina Cortese, Sandra Milo.

Em 08 e 1/2, Fellini aborda o caos criativo de um cineasta que também é um marido infiel pincelado em um delirante preto e branco. No seu filme seguinte o mestre italiano cria um gancho deixado no clássico de 1963 e aborda a crise existencial de uma esposa após descobrir infidelidade do esposo. E assim nasce Julieta dos Espíritos, uma obra reconhecida pelo seu visual psicodélico - o primeiro filme colorido de Fellini - em que as cores fortes e vibrantes saltam para as telas em conjunto ao belo trabalho de design de produção e um figurino de luxo (Almodóvar ficaria em êxtase!) impulsionando um tom de sonho e pesadelo. Ao confrontar um presente incerto (fim do casamento?), Julieta mergulha de cabeça em memórias que guardam dramas familiares e o peso da criação católica como uma variante madura de Dorothy andando pelo Mágico de Oz. E a grande Giulietta Masima surpreende em uma atuação contida, um semblante triste mas sempre com um sorriso encantador. Engraçado constatar como Fellini era antenado as novas tendências. A Doce Vida mostrava inquietação social com viés político; Julieta dos Espíritos é um drama feminino imerso a cultura pop, a psicodelia e ao surrealismo. Não é um dos melhores filmes do diretor mas é um produto que encaixa perfeitamente ao estilo felliniano.

sábado, setembro 05, 2020

Graças a Deus

(Grâce à Dieu, França, 2018)
Direção: François Ozon
Elenco: Melvil Poupaud, Denis Ménochet, Swann Arlaud, Eric Caravaca.

François Ozon é um cineasta francês conhecido pelo seu estilo provocativa como Swimming Pool - À Beira da Piscina e Dentro de Casa. Mas ao abordar a pedofilia na Igreja Católica, o diretor surpreende ao pisar no freio perante a um material estritamente polêmico. E inesperadamente o tom contido faz bem ao filme ao focar os traumas e a luta por justiça das vítimas e ainda alfineta a hipocrisia das pessoas próximas dos protagonistas que prefere "deixar pra trás" essa terrível experiência para não provocar a ira da sociedade e da Igreja. Com uma pegada mais realista, Ozon faz uma obra condizente, adequada que reflete a coragem que as pessoas tem hoje de expor as suas fragilidades e empeitar de frente os seus algozes e poderosos. E diante de tantas narrativas, o destaque fica com a ótima montagem de Laure Gardette que nunca perde o ritmo. E Graças a Deus mostrar algo inusitado: homens, religiosos, brancos e héteros como minoria. Pensando melhor, este fato talvez seja provocativo o bastante especialmente para um cineasta gay como é o caso de Ozon. Mas isso só reforça o fato que injustiças e abusos não escolhe raça, sexo, religião, ideologia. O importante é denunciar.

terça-feira, setembro 01, 2020

O Inquilino

(The Tenant, EUA/França, 1976)
Direção: Roman Polanski
Elenco: Roman Polanski, Isabelle Adjani, Melvin Douglas, Shelley Winters.

Foi com a famosa Trilogia do Apartamento que lançou Roman Polanski como um mestre do suspense e terror. O cineasta francês sabe como poucos explorar a loucura humana através do senso de isolamento mais a convivência em um lugar minusculo; abordando desde traumas sexuais (Repulsa ao Sexo) a maternidade (O Bebê de Rosemary). Em O Inquilino, o diretor vai além e ousa ao se colocar como interprete principal o que deixa tudo íntimo. Conhecido por um turbulento histórico pessoal, Polanski escancara ao dar vida a um jovem francês, polonês de criação, que retorna a Paris e decide morar em um prédio velho e decrépito habitado por pessoas mais estranhas ainda. Pra quem é cinéfilo se diverte ao ver o diretor brincar com a sua persona associado a temas tão indigestos como obsessão, loucura, perda de identidade (e ousadamente brinca com o transexualismo). E o trabalho do mestre da fotografia Sven Nykvist ajuda bastante no tom soturno deixando tudo mais depressivo, insano. Como ator, o diretor surpreende pela naturalidade em frente as câmeras mas o filme é marcado pelo ótimo final surpreendente. Um dos melhores filmes de Polanski.