quarta-feira, novembro 10, 2021

First Cow - A Primeira Vaca da América

(EUA, 2019)
Direção: Kelly Reichardt
Elenco: John Magaro, Orion Lee, Toby Jones, Scott Sherpherd

Nos dias atuais, um cachorro fareja algo estranho na beira de um rio e a sua dona descobre a ossada de duas pessoas. A estória dá uma salto no tempo e volta para o século 19 expondo um jovem cozinheiro, Cookie Figowitz, desbravando a costa oeste dos EUA. E no caminho ele se depara com o chinês King-Lu. Do inusitado encontro nasce uma amizade mas King-Lu se entusiasma com o talento de Cookie para a realização de doces. E esse empreendimento ganha força com a chegada da primeira vaca na região.
O filme da estadunidense Kelly Reichardt é uma clara demonstração que menos é mais. Com uma produção pequena ela faz um filme grande e ambicioso. Aqui ela realiza um pequeno raio x do processo de expansão dos EUA. Um tema que poderia muito bem descambar para o faroeste. Mas se neste gênero o conflito surge na luta de um protagonista e antagonista; em First Cow o conflito existe mas é com outro intuito: sobreviver a um ambiente hostil, degradante. A diretora foca no contexto histórico do inicio da criação dos EUA com a chegada do homem branco; a fronteira sem lei que foi a costa oeste americana; e a convivência nem sempre pacifica com outras etnias vale estrangeiros e indígenas.
A obra  usa um estilo mais naturalista ao expor a realidade daquela época. Assim, a fotografia de Chris Blauvelt enaltece a natureza (a floresta densa, úmida, e fria) e a rusticidade das casas (as vilas decrepitas cheias de lama). E a trilha sonora de William Tyler apresenta uma partitura delicada e tímida.
O elenco também reflete o estilo "econômico" típico de uma produção independente o que dá mais autenticidade a obra como é o caso da boa atuação da dupla John Magaro e Orion Lee. Lee reencarna o chinês esperto e ambicioso que descobre no dom de confeitaria de Cookie a oportunidade perfeita para sair da miséria. Já Magaro representa um personagem que o seu semblante calmo esconde um ser deslocado ao se enveredar por um lugar que de fato não lhe pertence.
First Cow - A Primeira Vaca da América fala do poder da amizade; do empreendedorismo; e politicamente aborda um estado que não acolhe os mais necessitados privilegiando a elite como é o caso do reverendo, dono da única vaca da região.
Com um ritmo lento e contemplativo, o que pode afugentar o público desacostumado a este formato mas se este conseguir embarcar na estória se encantará com a simplicidade que a diretora usa ao recriar o nascimento de uma nação. Um filme encantador.

sexta-feira, novembro 05, 2021

Meu Pai

(The Father, Inglaterra/França, 2020)
Direção: Florian Zeller
Elenco: Anthony Hopkins, Olivia Colman, Olivia Williams, Rufus Sewell.

Nos primórdios do cinema, a principal referência aos realizadores era o teatro. Por ser uma arte recém-criada, a linguagem cinematográfica foi surgindo aos poucos. Mas por ironia da vida, quase sempre as adaptações de peças teatrais enfatizam mais a linguagem teatral gerando teleteatros. Já na década de 1970, Hollywood se surpreendeu pelo enorme sucesso de bilheteria de Love Story e começou uma enxurrada de filmes sobre doenças que sempre caiam no melodrama carregado. Pois um autor de teatro francês, Florian Zeller, em seu debut, mistura teatro e mal de Alzheimer e surpreende por fazer uma obra CINEMATOGRAFICA e sem cair no piegas.
Anne é a filha única que cuida de seu pai, Anthony, um engenheiro aposentado que sofre de alto estágio de demência. Mesmo tentando manter a mente sã, Anthony está totalmente desorientado do tempo e das pessoas próximas que lhe acolhem o que gera transtorno para a sua filha que fica no embate entre lhe dar suporte ou o encaminhar para um asilo.
O filme Meu Pai apresenta duas visões de quem sofre em conta da demência. a vitima que luta para continuar a viver mas totalmente imerso na desorientação da realidade. E a filha do doente que testemunha a descida ao inferno do ente querido e ao mesmo tempo fica dividida entre os cuidados do pai e a sua vida particular.
Sob o ponto de vista técnica, a obra de Zeller chama atenção pela brilhante direção de arte de Peter Francis que transforma o apartamento em um labirinto refletindo o caos mental de Anthony tornando a imediata imersão do público na cabeça do protagonista. A montagem delicada e intricada de Yorgos Lamprinos sabe conduzir os devaneios do personagem de Anthony Hopkins.
E como um cineasta maduro e perspicaz, a fantástica estréia de Florian Zeller na direção chama atenção ao adaptar a sua própria peça e surpreende ao pegar uma narrativa teatral e transformá-la perfeitamente em uma obra cinematográfica. E esse tipo de filme exige um elenco afiado - e a dupla Anthony Hopkins e Olivia Colman dão um show. Os dois representam a dor em ficar sozinho. Ela que carrega o fardo de cuidar do pai cada vez mais o que se transforma numa responsabilidade pesada demais. Já o pai é um homem controlador que se desespera por justamente perder esse senso além do temor da solidão (sem esposa, a outra filha morta). E Hopkins dá um show particular no final de partir o coração. Meu Pai é uma dolorosa experiência sobre a demência tanto por parte da vítima como nas pessoas mais próximas.

segunda-feira, novembro 01, 2021

Minari - Em Busca da Felicidade

(EUA, 2020)
Direção: Lee Isaac Chung
Elenco: Steven Yeun, Ye-Ri Han, Alan S. Kim, Yuh-Jung Youn.

Minari é uma planta comestível muita usada na culinária coreana e utilizada nos mais variados pratos. De fácil cultivo, basta plantar em áreas úmidas que cresce rápido. E é esta versatilidade que alimenta a família de Jacob Yi em sua estadia nos EUA.
Em meados da década de 1980, uma família de coreanos larga a Ásia e parte para a zona rural do Arkansas nos EUA em busca do mítico sonho americano. Mas quando chegam no lugar nos deparamos com um casal em constante atrito: o marido Jacob sonha enriquecer através do agronegócio; a esposa Monica prefere a zona urbana em virtude do filho caçula sofrer sérios problemas cardíacos.
Minari é um filme autobiográfico do diretor estadunidense Lee Isaac Chung que relata a sua infância nos EUA. E com um olhar aguçado e sensível aborda o poder da família, a gama em passar por obstáculos e principalmente de preservar as raízes (por isso a força da natureza é tão representativa no filme). Aqui, a ótima direção e roteiro de Chung foca no drama familiar em que os membros tentam lidar com diferentes visões sobre a sua sobrevivência em um país tão distinto e surpreendentemente acolhedor. Assim, o filme ganha pontos ao expor a chegada de uma nova cultura mas sem cair no óbvio tema da xenofobia. Em Minari, o interior dos EUA é retratado como uma comunidade receptiva e acolhedora - aqui existe uma rara união entre os coreanos e americanos que lhe confere um sopro de bondade tanto por parte das pessoas como a própria natureza da região. Não é de estranhar que a produção tenha caprichado na sua parte técnica. A linda fotografia de Lachlan Milne que mostra a natureza da região como um Jardim do Édem. Já a etérea trilha sonora de Emile Mosseri amplifica um senso contemplativo na estória.
Mas o ponto alto é a rica galeria de personagens cativantes incluindo até o ajudante americano de religiosidade exacerbada numa demonstração da versatilidade do ator Will Paxton. E a dupla Steven Yeun e Ye-Ri Han expõe uma ótima química ao imprimir o contraste entre o marido sonhador e a esposa mais realista. Mas não tem como se encantar com a dupla emocionante formada entre o travesso neto David e a avó não muito convencional Soon-ja interpretada pela coreana Yuh-Jung Youn que mereceu o Oscar de melhor atriz coadjuvante ao dar vida a uma senhora esperta e ao mesmo tempo amorosa.
Minari é belo filme sensível e emocionante sobre as adversidades da vida, o poder do núcleo familiar, a importância e a força das nossas origens culturais e também uma contemplativa narrativa sobre o poder da natureza sobre as pessoas.

segunda-feira, outubro 25, 2021

Festival de Toronto 2021

 

Quando o Festival de Toronto se aproxima é sinal que a temporada dos festivais se finaliza...e inicia o período das premiações e especulações sobre o Oscar. E nesta edição, filmes consagrados em festivais de Veneza, Cannes e Berlim estiveram presentes e alguns conseguiram sair da cidade canadense com algum prêmio como foi o caso de Power of the Dog, prêmio de direção em Veneza confirmando a crescente força de Jane Campion nesta temporada, e o cult francês vencedor da Palma de Ouro em Cannes, Titane. Mas o prêmio máximo na edição 2021 foi para o drama em preto-e-branco autobiográfico do cineasta irlandês Kenneth Branagh chamado Belfast. Outros filmes que chamaram a atenção foram - e que não participaram de outro festival - foi a produção estadunidense The Humans de Stephen Karan sobre um jovem casal que recebe a visita de familiares no dia de ação de graças; o britânico Benedicia de Terence Davies, biografia do poeta Siegfried Sassoon.


***

A lista dos vencedores do Festival de Toronto 2021:

Prêmio da Audiência: Belfast (Reino Unido) de Kenneth Brangh (1º lugar); Scarborough (Canadá) de Sasha Nakhai e Rich Williamson (2º lugar); The Power of the Dog (Nova Zelândia) de Jane Campion (3º lugar)

Documentário: The Rescue (EUA/Reino Unido) de Chai Vasarhelyi e Jimmy Chin

Seleção Midnight: Titane (França) de Julia Ducournau

quarta-feira, outubro 20, 2021

Destaques nos cinemas

O HOMEM QUE VENDEU SUA PELE

(The Man Who Sold His Skin, Tunísia, 2020) de Kaouther Ben Hania
Drama. Para sobreviver na Europa, um refugiado sírio aceita a proposta de um artista de ter as suas costas tatuado como uma obra de arte.




O ÚLTIMO DUELO

(The Last Duel, EUA/Inglaterra, 2021) de Ridley Scott
Drama. Na idade média, um duelo atiça a França entre um cavaleiro e um escudeiro, este acusado de violar a esposa do cavaleiro.



DUNA
(Dune, EUA/Canadá/Hungria, 2021) de Denis Villeneuve
Ficção científica. Em futuro distante, um planeta chamada Duna contém uma substância milagrosa que gera conflito com outros povos. 

sexta-feira, outubro 15, 2021

Lançamentos nos Streamings

CAPITÃO PHILLIPS
(Captain Phillips, EUA, 2013) de Paul Greengrass
Star Plus
Drama. Navio cargueiro dos EUA é sequestrado por piratas da Somália quando se aproxima da costa africana. 



CLUBE DA LUTA
(Fight Club, EUA, 1999) de David Fincher
Netflix
Suspense. Homem que tem uma vida monótona vê a sua realidade mudar quando participa de um clube em que os participantes lutam boxe entre si.


CORINGA
(Joker, EUA, 2019) de Todd Phillips
Telecine Play
Drama. Homem emocionalmente vulnerável em conta de uma estranha síndrome vai mergulhando em uma espiral de loucura que alimenta o caos em sua cidade.

CRY MACHO: O CAMINHO PARA REDENÇÃO
(EUA, 2021) de Clint Eastwood
HBO Max
Drama. Peão de rodeio aposentado tem a sua última missão: transportar o filho de seu antigo chefe do México para os EUA.




GUERRA AO TERROR
(The Hurt Locker, EUA, 2008) de Kathryn Bigelow
Netflix
Drama. Veterano da guerra do Iraque, especialista em desarmar bombas, não consegue lidar com o cotidiano quando volta aos EUA.



O LADO BOM DA VIDA
(Silver Linners Playbook, EUA, 2012) de David O. Russell
Star Plus
Comédia dramática. Homem que tenta a normalidade após um tempo em uma clinica psiquiátrica se apaixona por uma jovem bonita e problemática.

MALIGNO
(Malignant, EUA, 2021) de James Wan
HBO Max
Terror. Após a morte do marido, mulher tem estranhas visões que terminam em violentos assassinatos.


MIB: HOMENS DE PRETO
(Men is Black, EUA, 1997) de Barry Sonnenfeld
Star Plus
Ficção cientifica. Jovem entra numa agência de espionagem nada convencional: caçam alienígenas que quebram a estabilidade entre os homens.



MINARI: EM BUSCA DA FELICIDADE
(EUA, 2020) de Lee Isaac Chung
Amazon Prime
Drama. Nos anos de 1980, uma família de coreanos se muda para o interior dos EUA como desejo de viver o sonho americano.



O RESGATE DO SOLDADO RYAN
(Saving Private Ryan, EUA, 1998) de Steven Spielberg
Netflix
Guerra. No fatídico Dia D, expõe a visão dos estadunidenses sobre a invasão da Normandia na França.




VERÃO DE 55
(Eté 85, França, 2020) de François Ozon
Telecine Play
Drama. Aproveitando o verão de 1985, jovem é atraído por um rapaz que lhe salvou de um afogamento no mar.