domingo, outubro 10, 2021

No Ritmo do Coração

(CODA, EUA, 2021)
Direção: Siân Heder
Elenco: Emilia Jones, Marlee Matlim, Eugenio Derbez,Trou Kotsur.

Ruby é uma jovem adolescente e caçula de uma família de deficientes auditivos e a única que não apresenta deficiência o que a torna a interprete de sua família na vida pessoal e financeira (vivem da pesca). Prestativa com os seus deveres, Ruby decide arriscar em uma grande paixão até então desconhecida de todos: a música. E esse sonho gera conflitos em sua casa pois a sua família depende da caçula para sobreviver.
Mesmo ganhando um titulo sofrível aqui no Brasil (o original é CODA que tem dois significados: filho de pais surdos; e conclusão de uma composição musical) é um filme que vale a pena conferir pela gama de temas explorados. Aborda o preconceito com os deficientes que ainda são ridicularizados e até isolados. E mesmo que Ruby não seja deficiente ela sofre junto com a família tornando vitima constante de bulliyng na escola (e um certo distanciamento em casa por ser a única "normal"). O filme conversa também a respeito do sacrifício em nome da família pelo fato da protagonista estar sempre a disposição da família a ponto desta abusar e sufocar Ruby. E por fim, o filme defende a educação como um instrumento vital e importante para a realização profissional.
Com um roteiro e direção inspirado e correto de Siân Heder em seu segundo longa-metragem, o destaque fica com a montagem de Geraud Brisson que consegue costurar essa mistura de temas e deixar tudo fluido, orgânico. Mas a diretora tem boa visão para grandes momentos como a comovente cena em que mostra a apresentação da Ruby sob o ponto de vista dos pais surdos.
No Ritmo do Coração recorda muito o padrão Disney com o estilo leve - por isso que a diretora tentou distanciar essa visão com os vários palavrões mas a obra é comportada - mas isso não torna o filme menor. Esse ar de filme família se mistura com filme adolescente o que remente muito a John Hughes mas de uma maneira dócil e feminina, e também ganha pontos por não se resvalar ao melodrama. Uma obra delicada sobre sonhos e sacrifícios.

terça-feira, outubro 05, 2021

Nomadland

(EUA, 2020)
Direção: Chloé Zhao
Elenco:  Frances McDormand, David Strathairn, Linda May, Swankie.

Uma pequena cidade do interior dos EUA foi criada por uma grande empresa. Mas esta não aguenta o baque da crise econômica de 2008 e vai a falência. Como a cidade e os seus habitantes dependem totalmente da empresa, a região deixou de existir. E aqui começa a jornada de um de seus habitantes: Fern.
Após perder o marido, Fern é obrigada a desocupar o seu lar de 30 anos. E a solução da protagonista é comprar uma van - que ela chama carinhosamente de Vanguarda - e viver na estrada e nos empregos que ela encontra no caminho. Mas a sua jornada é mais enriquecedora com as pessoas que cruzam o seu destino. Assim, o estilo de vida nômade se torna uma nova razão de viver.
A cineasta Chloé Zhao volta ao terreno do docudrama no mesmo formato do seu filme anterior, o ótimo Domando o Destino. E o seu estilo cai como uma luva na adaptação do livro de Jessica Bruder. Com a mão delicada, a cineasta toca em assuntos pertinentes que vai além da fronteira dos EUA: fala da falta de assistência social aos vulneráveis (emprego está difícil e a aposentadoria mal dar para viver); a cultura dos nômades, expondo a solidariedade entre os praticantes, e também o desapego aos bens materiais; e aborda a vida solitária nas estradas reforçada pela introspectiva montagem da diretora (o que pode afugentar o público no inicio do filme).
O filme de Zhao também é uma contundente critica ao capitalismo focando na decepção das pessoas a um sistema que explora e no fim só distribui migalhas. E isso pode explicar a razão da ascensão de políticos populistas que criam uma imagem de salvador mas que são mera ilusões.
Além do bom roteiro da própria Zhao, o filme engrandece graças a bela fotografia de Joshua James Richards que registra a vasta e variada natureza dos EUA: das terras congeladas do norte a aridez do sul, e pulando para o litoral verde e úmido. Outro destaque é a linda trilha sonora de Ludovido Einaudi que causa um tremendo impacto emocional mas sem cair no melodrama. É ao mesmo tempo tocante e delicado.
Nomadland não fala apenas sobre uma mulher que decide virar a página da sua vida quando percebe que tudo que ela tinha é passageiro. Vai além. É uma pessoa que entra nesse universo em busca de uma nova conexão. Um elo entre ela e as pessoas e o ambiente ao seu redor. Mesmo aos 60 anos e com força e disposição para trabalhar e viver plenamente, o que importa é a troca de energia e não o seu acúmulo. 
Por isso que a grande estrela do filme é a Frances McDormand. E aqui a atriz está um colosso. Se ela é sempre marcada por personagens fortes e de pulso firme, em Nomadland ela acrescenta um lado humano e delicado em sua composição. Com a vivência na estrada e a entrada e saída de pessoas em seu destino expõe sua fragilidade e isso vai moldando a sua própria humanidade. E com uma conclusão otimista e humanista, a diretora faz um belo filme sobre uma mulher e sua jornada da autodescoberta, a importância de viver intensamente, e o desapego aos bens materiais.

sexta-feira, outubro 01, 2021

Maligno

(Malignant, EUA, 2021)
Direção: James Wan
Elenco: Annabelle Wallis, Maddie Hasson, George Young, Jacqueline McKenzie

James Wan realmente gosta do terror. É neste gênero que ele parece sentir mais a vontade a ponto de criar duas franquias que impulsionaram o horror nos últimos anos. No entanto, o seu estilo tradicional faz a alegria de um público que anseia por uma convencional cascata de susto. Mas em Maligno, ele tenta fugir dessa fórmula com um enredo mais "intricado"...mas admito que a nova empreitada não deu muita liga. Aqui está mais com cara de filme que quase se resvala para o cinemão B.
Em 1992, uma cientista se depara com uma estranha criatura que está aniquilando todos os funcionários de um hospital. A estória dá uma salto abrupto no tempo para os dias atuais e nos deparamos com a enfermeira Madison, grávida e que vive em um relacionamento abusivo. Após uma briga que resulta em um sério machucado na cabeça de Madison, os dois são atacados por uma estranha criatura que surge na casa. Ele morre, ela sobrevive. Diante de um ataque tão misterioso, a polícia começa a suspeitar da protagonista que apresenta um estranho comportamento: ela informa que tem visões de assassinatos que tem relação com as pessoas que aparecem no início do filme.
Maligno remete a uma metáfora sobre como lidar com os demônios interiores que encaramos e que as vezes parece nos apossar e nos controlar. Mas aqui James Wan parece dividir a narrativa em dois momentos ilustrando uma certa auto reverencia aos seus grandes sucessos como o início à lá Invocação do Mal (a casa mal assombrada) e depois descamba para Jogos Mortais (as reviravoltas violentas e sanguinolentas que se distanciam do sobrenatural e também do apelo sádico do filme de 2004). A fotografia escura de Michael Burgess representa bem a sempre chuvosa e nublada Seatlle como também cai como uma luva para deixar o filme mais soturno e sombrio; e importante destacar o uso de cores fortes (o vermelho, o azul) em cenas pontuais remetendo o terror italiano da década de 1970. Já a trilha sonora de Joseph Bishara tem os seus bons momentos - no entanto tem alguns acordes que lembra demais trilha de seriado de televisão.
Com uma premissa aparentemente interessante, Wan elabora no terço final do filme um plot twist surreal em que fará com que o público goste ou odeie - simplesmente uma conclusão absurda e quem "comprar" a ideia poderá se divertir mais. Infelizmente não foi o meu caso que achei tão tola que não levei o filme a sério e me deixei levar pelo piloto automático. O que é uma pena pois o filme tem pontos altos como a atuação da atriz Annabelle Wallis que consegue dar verdade a personagem tornando-a tridimensional e ao mesmo tempo imprimir todas as suas angústias; e Wan faz um bom trabalho de câmera.- ele elabora ótimas sequências e fantásticos movimentos de câmera (como a cena da Madison correndo na casa sob o ponto de vista de cima).

sábado, setembro 25, 2021

Festival de Veneza 2021

 


Com um mês de atraso em conta da pandemia - e um tempo essencial para realizar a exibição dos filmes de forma presencial - o Festival de Veneza 2021 chega com uma gama incrível de bons filmes. Presidido pelo realizador coreano de Parasita, Boong Joon Ho, a competição está recheada de filmes que farão bonito na temporada de premiação 2022. Mas o júri surpreende ao premiar com o Leão de Ouro de Melhor Filme o francês Happening de Audrey Diwan que fala sobre o aborto na França de 1960 - e faz uma dobradinha com Cannes que neste ano também premiou uma outra obra francesa polêmica dirigida por uma cineasta. Mas os grandes destaques do festival deste ano foram: o espanhol Mães Paralelas em que o mestre Pedro Almodóvar volta a falar sobre maternidade de uma forma mais franca e madura; o neozelandês The Power of Dog, o retorno de Jane Campion sobre dois irmãos que entram em conflito com a chegada de uma mulher; o britânico Spencer em que o grande cineasta chileno Pablo Larrain faz uma intimista biografia da Princesa Diana; o estadunidense A Filha Perdida, a surpreendente estréia da atriz Magie Gyllenhaal na direção ao abordar uma mãe que encara demônios pessoais em uma viagem de férias; o britânico Noite Passada em Soho em que o criativo Edgar Wright explora o terror sobre uma mulher que tem uma fixação pela Londres dos anos de 1960; o italiano A Mão de Deus em que o diretor Paolo Sorrentino faz o seu filme mais pessoal ao falar sobre a sua adolescência. O brasileiro 7 Prisioneiros de Alexandre Moratto não entrou na competição oficial mas foi adquirida pela Netflix e recebeu ótimas criticas ao abordar um jovem que entra no mundo do tráfico de pessoas.

***

A lista dos vencedores do Festival de Veneza 2021:


Leão de Ouro: Happening (França) de Audrey Diwan

Grande Prêmio do Júri: A Mão de Deus (Itália) de Paolo Sorrentino

Melhor Direção: Jane Campion - The Power of Dog (Nova Zelândia)

Melhor Ator: John Arcilla - On The Job: The Missing 8 (Filipinas)

Melhor Atriz: Penelope Cruz - Mães Paralelas (Espanha)

Melhor Roteiro: Magie Gyllenhaal - A Filha Perdida (EUA)

Prêmio Especial do Júri: Il Buco (Itália) de Michelangelo Frammartino

Prêmio Marcello Mastroianni de Revelação: FilippoScotti - A Mão de Deus (Itália)

segunda-feira, setembro 20, 2021

Destaques nos cinemas

SHANG-CHI E A LENDA DOS DEZ ANEIS

(Shang-Chi and The Legend of the Ten Rings, EUA, 2021) de Destin Daniel Cretton
Fantasia. Jovem que foi treinado pelo seu pai para ser um mestre na artes marciais se rebela em busca de sua liberdade. 



CRY MACHO: O CAMINHO PARA REDENÇÃO

(EUA, 2021) de Clint Eastwood
Drama. astro dos rodeios decadente transporta do México para os EUA o filho rebelde de um ex-patrão e inesperadamente cria um laço emotivo com o rapaz.


NO RITMO DO CORAÇÃO

(CODA) de Siân Heder
Drama. Ao se encantar com a música, jovem fica dividida com a carreira artística ou cuidar da sua família que tem deficiência auditiva.




007 - SEM TEMPO PARA MORRER

(No Time To Die) de Cary Joji Fukunaga
Ação. Curtindo a vida tranquila na Jamaica, o famoso espião é acionado para uma nova missão com o objetivo de destruir um homem que criou uma invenção perigosa.




A CASA SOMBRIA

(The Night House) de David Bruckner
Terror. Em luto pela morte de seu marido, mulher se isola numa casa que guarda terríveis segredos.

quarta-feira, setembro 15, 2021

Lançamentos nos Streamings

BOA SORTE
(Brasil, 2014) de Carolina Jabor
Netflix
Drama. Adolescente impulsivo é internado em uma clinica psiquiátrica e se apaixona por uma paciente que apresenta uma vida dolorida.

O ESQUADRÃO SUICIDA
(The Suicide Squad, EUA, 2021) de James Gunn
HBO Max
Ação. Uma instituição governamental convoca um grupo perigoso para lutar em uma ilha comandada por um militar maluco.




GABRIEL E A MONTANHA
(Brasil, 2017) de Fellipe Barbosa
Netflix
Drama. Antes de ingressar a universidade, jovem decide se aventurar pelo mundo como um mochileiro na África.




MARLEY & EU
(Marley & Me, EUA, 2008) de David Frankel
Disney Plus
Drama. Recém-casados, casal decide adotar um labrador que com o seu gênio terrível muda as suas vidas.





A MENINA QUE MATOU OS PAIS
(Brasil, 2021) de Mauricio Eça
Amazon Prime
Drama. O assassinato de um casal da classe alta de São Paulo sob o ponto de vista da assassina: a filha do casal.




O MENINO QUE MATOU OS MEUS PAIS
(Brasil, 2021) de Mauricio Eça
Amazon Prime
Drama. O assassinato de um casal da classe alta de São Paulo sob o ponto do assassino: o namorado da filha do casal.



UM NINHO PARA DOIS
(The Starling, EUA, 2021) de Theodore Melfi
Netflix
Drama. Casal que passa por um difícil momento após perder o filho recém-nascido convivem com um pássaro agressivo que se instalou em seu jardim.


NOMADLAND
(EUA, 2020) de Chloé Zhao
Telecine Play
Drama. Viúva sem casa e emprego decide mudar o seu estilo de vida e cair na estrada com a sua van.




NÓS
(Us, EUA, 2019) de Jordan Peele
Netflix
Terror. Família viaja de férias e são atacadas por uma outra família que parece ser seus clones.